domingo, 21 de setembro de 2008

Brumas da Paixão: Luzes apagadas

Sabem o que são passos pequenos? Aqueles passos de menino que ainda não sabe onde Papai Noel mora, ou como o Coelho da Páscoa põe seus ovos, ou até mesmo como faz a pobre Mula-sem-cabeça pra enxergar? Não?! Bem... Era exatamente o som de passos assim que se ouviria ali se estivesse alguém mais naquele lugar onde ele andava admirando a lua e a luz com a qual a dama da noite presenteava aquele gramado... Ele estava perdido? Ele nem queria saber disso. Ele não estava preocupado porque tinha certeza de que a lua estava olhando pra ele... E ele era muito esperto!
Aquele pequenino e intrépido explorador saíra de casa por aquela porta pra descobrir um mundo novo. Aquele mundo que só fadas, duendes e gnomos conheciam, e ele também, claro! Estava equipado com sua fiel mochila onde levava todos os trecos especiais que um grande explorador precisaria pra uma missão tão grande e nobre quanto à dele. Uma lanterna de duas pilhas, um estilingue de calibres múltiplos e que jamais errava, sua capa mágica amarrada no pescoço, que ainda estava úmida por conta da magia que fizera no seu pós-banho, duas barras de chocolate meio amargo que pegou da gaveta de sua mãe durante uma de suas aventuras, algumas balas de yogurte que gostava tanto, daquelas que seu pai guardava dentro do orbe mágico que ficava em cima da escrivaninha da biblioteca de sua casa, alguns gibis pra sua cultura própria, uma lata de espinafre que ele jamais iria comer, mas que esperava que lhe oferecesse força mesmo assim, um velho rádio sem pilhas que já não cantava nada, porque ele tinha concertado pra servir-lhe de comunicador interestelar, e um punhado de moedas que se ele tivesse parado pra contá-las depois que sacrificou seu porquinho pela nobre causa de sua busca, poderiam ser trocadas por uma nota de adulto... Ele tinha certeza disso... Era esperto demais... Era um exímio explorador!
Aqueles passos pequenos e firmes... Corajosos até... Enfrentavam aquela escuridão absoluta auxiliados por uma poderosa lanterna que carregava a luz do sol. Ele era um nobre desbravador de uma experiência invejável. Já tinha sido várias coisas no decorrer de seus longos quatro anos de vida: super-herói, bombeiro, médico, piloto de espaçonave, pirata do caribe, cavaleiro de armadura dourada, menino encolhido pelo “pai-cientista-maluco”, que, aliás, nessa ocasião domou milhões insetos, voou em todos os tipos de besouros do mundo e mandou uma barata assustar a mãe na cozinha, foi astronauta também e voava em gansos e cometas como um amigo que conheceu um dia, e mais um monte de infinitas coisas que o enchiam de orgulho!
Ele entrou na floresta depois de cruzar aquela estreita ponte de madeira. Ele ouvia as árvores falando, tinha certeza disso e até falava “arvorês” fluentemente, mas era uma pessoa pública e estava numa importante missão. Por isso, desejou só uma boa noite e continuou seu caminho. Sentiu, por um momento, falta de seus amigos bichos. Até ficou com vontade de ir à casa de dona coruja, mas, era tarde e ele se atrasaria no caminho de sua empreitada que revolucionaria o mundo. Parou por um instante pra averiguar o mapa que havia desenhado antes de sair de casa a fim de procurar o mundo que só fadas, duendes e gnomos conheciam, e ele também, claro! Foi nessa hora que escutou:
- Olá! – Disse aquela voz de menina-do-sorriso-mais-lindo-que-ele-já-tinha-visto-em-toda-sua-vida.
- Olá! – Respondeu o maior de todos os exploradores do universo.
- Você está perdido? – Disse aquela menina de cabelos de pôr-do-sol, os olhos da cor do céu de domingo e o vestido brilhante como a lua branca e tênue.
- Jamais! Você não sabe quem eu sô? Eu nunca me perco!
- Não sei, não... Quem você é?
- Você num vê muita tevelisão, não é?
- O que é isso?
- Isso o quê?
- Tevelisão!
- Ah, é onde passa novela... Jornal... Desenho... E um monte de gente, falando um monte de bestêra!
- Você fala bestêra na tevelisão?
- Nãããooo!!! Iiiiiiiiii... Tu é burra, hein? Eu sô u maior explorado do u-ni-ver-so!
- Iiiii... É? E você vai explorá o quê?
- Eu vô achá o mundo que só fadas, duendes e gnomos conhecem, e eu também, claro!
- Posso i com você?
- Pode! Vâmu?
E eles continuaram na fantástica aventura. A mais fantástica aventura de todo o mundo. Subiram montanhas feitas de chocolate. Atravessaram rios feitos de suco de laranja. Andaram nas nuvens feitas de algodão doce... Bem que ele sabia que eram de açúcar... Ficou imaginando se a lua era feita de queijo como diziam por aí ou de sonhos como ele achava que era. Ele voou em dragões míticos. Domou unicórnios maravilhosos. Achou estrelas que caíram do céu e as devolveu a mãe lua. Astuto, roubou uma cesta de maçãs envenenadas quando escutou de uma bruxa que eram pra alguma menina que ele não conseguia lembrar o nome, e as jogou num rio porque achou que não havia coisa melhor a fazer. Deram uma peruca e duas tapas na bunda da mula-sem-cabeça, um chinelo de dedo pro curupira, um par de sapatos pra um saci, um livro de auto-ajuda pra uma alma penada, um DVD “como parar de fumar” pra Matinta Perêra, e mais um monte de estripulias serelepes que só poderiam ser elaboradas por mentes brilhantes como a desse velho, exímio, intrépido e famosíssimo explorador de mundos. No final ele conseguiu as duas coisas que mais desejou durante sua empreitada... Encontrou o mundo que só fadas, duendes e gnomos conheciam, e ele também, claro!... E andou de mãos dadas com aquela menina que encontrou no bosque quando foi observar seu mapa, e quando olhou pra ela lembrou que havia esquecido o mapa bem naquela ocasião, mas não se preocupou, porque ele nunca se perdia e, ainda por cima, estava na companhia dela. Eles sentaram no alto de um penhasco pra ver o pôr-do-sol e viram o quão lindo era aquele mundo. Era o mundo onde todas as coisas esquecidas pelo homem viviam. O lugar das coisas mais simples da vida. Com montanhas feitas de esperança. Um ar feito de bondade. Planícies de verdade e desapego. Rios e rios, oceanos até, de caridade. Nuvens feitas de risos. Tudo iluminado por um sol feito de purezas, uma lua feita de sonhos e estrelas que tinham um brilho fantástico de compaixão. Um lugar tão simples e belo quanto aqueles passos leves, firmes e corajosos... Aqueles passos pequenos que chegavam mais longe. Então a menina disse:
- Preciso ti contar uma coisa.
- Pode falar... – Retrucou o grande explorador.
- Vou crescê junto com você, sabia?
- Crescê? O que é isso?
- Ah, é um monte de conta pra pagá... Pêlo pra todo lugá... Estudu... Trabalhu... Boca pra dá di comê... Briga pra aturá... Filhu pra criá... Ixi... Mais um moooonte de coisa!
- É ruim?
- Não... Só fica ruim porque muita gente esquéci disso!
- Esqueci di quê?
- Di quê um dia viu o mundo tão lindo quanto estamus vendu agora...
- É?
-É!... Mas agora você precisa dormi...
Foi aí que o pai levantou e apagou as luzes.

2 comentários:

Carolina Matos disse...

Vou contar essa história pros meus filhos... obrigada por me fazer lembrar desse mundo, e do explorador...

:)

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graziele disse...

Caracas, muito legal. Adorei!Você já pensou em escrever livros?Deveria! Aposto como iria ganhar um bom trocado com isso hehe. Abraços ;)~