quarta-feira, 23 de abril de 2008

Brumas da Paixão: Prólogo de Dite.


Era noite, diziam as notas entoadas por uma coruja que cantava para lua. Entre quatro paredes ele estava, ou pelo menos seu corpo e o início do cordão de prata. Aparência calma depois de um dia normal... John Matthews Wolf sonha com uma velha história...

Uma vez em sonho, me recordo, de um castelo em forma de pirâmide feito de um estranho metal enegrecido. Cercado por quatro imponentes obeliscos. Ficava no meio de uma floresta lindíssima em um lugar onde o céu era percorrido por pedras flamejantes que vira-e-mexe mergulhavam no infinito oceano de águas escurecidas que se via logo após o abismo que dava fim a flora única daquele lugar: eu estava em Dite. A principal cidade da quinta camada infernal. Como fui parar ali? A pergunta melhor seria... Por quê? Eu estava escondido atrás de umas árvores de onde podia ver algumas pessoas... Chineses... Soldados sohees... Monges... Estavam à procura de Poder... Barganhavam com algumas corcundas criaturas encapuzadas... Pode parecer clichê, mas fodam-se... Eu estava lá e as vi assim! Eles as atacavam em massa com um resultado zero... Ninguém as feria. Uma delas, o líder, eu acho, pronunciou algumas palavras que não pude identificar o conteúdo, mas vi o resultado... Todos parados... Olhando um para o outro. Até que um dos chineses começou a falar com os outros... Vi que tinham aprovado... Receberam uma proposta... E seguiram seus ofertantes. E eu? Esperei entrarem... E fui junto ora essa! Foi nesse instante que vi que eu era um Lobo cinzento esgueirando-se pra dentro do Castelo Obelístico. Eu precisava ir. Meu faro estava tinindo. De uma das janelas, eu vi, os chineses num salão redondo de uma linda sala, foi ali que os vi queimar. Foi ali que os escutei gritar. Foi ali que os vi se contorcendo sob pena de uma dor incrível. Você sabe como os sentidos de um lobo sentem essas coisas? Você não acreditaria se te contasse. Pois bem, depois que o fogo os consumiu, por assim dizer, aquelas criaturas voltaram pra coletar o que sobrou daqueles homens. Um a um em fila indiana desceram as escadarias em espiral daquele salão. Você sabe, não é? Eu tinha que ir ver. Desta vez eu era um espectro que pairava por aqueles degraus até chegar a seu fim. Um salão... Mais como um fosso cônico... Gigantesco... Lembrou-me um copo de um liquidificador, porque aquelas paredes estavam sujas de carne humana como um copo sujo de um liquidificador que acabou de se livrar de seu conteúdo. Tens toda a razão se achar que não era uma visão agradável, mas você precisava ter sentido aquele cheiro. Lá dentro, uma criatura imensa em meio ao fogo que brotava do chão ao seu redor era enorme, virou na minha direção com seus flamejantes olhos cerrados e disse: - “Quero o que tem dentro de você!”. - “Então, por que você não pega?” – retruquei. Eu era uma mosca pousada na janela daquele cara, se você quiser ter uma noção melhor quando digo que era grande. - “Porque você não pode, não é mesmo?” – continuei. Vi as chamas de seus olhos saltarem e pularem como uma agitação grotesca. Podes não acreditar, mas calmamente e confiante flutuei, dei as costas a ele e segui meu caminho de volta pelas escadas, porém, desta vez, não era a linda sala redonda que aguardava minha saída, e sim aquele oceano de águas escuras e tristes... Tinha gosto, cheiro, e textura de sangue. Criaturas disformes nadavam ali. Chorosas e sofridas. Procurando alívio para uma dor que não se lembravam nem do motivo. Curiosas, elas começaram a se aglomerar ao meu redor no fundo daquelas águas como mosquitos atraídos pela luz azul, até que ouvi uma voz gritando: “É ele!” – depois tentavam me tocar... Segurar... Puxar-me pro fundo como alguém se afogando puxa se auxiliador inconscientemente pro fundo movida pelo desespero. Sem perceber, também, senti minha energia movendo as águas ao meu redor... Criando uma imensa esfera que levava meu corpo pra superfície, e foi chegando lá que vi meu reflexo nas águas daquele oceano... Vi asas cinzentas... Que me levaram a um jardim onde ouvi a voz de meu Pai: “Dê-me o artefato, meu filho.”. "– Como assim?" É... Nem eu sabia! Peguei alguma coisa naquele lugar. Um cetro de um brilhante e admirável metal negro. Parecia um chifre de unicórnio adornado de jóias vermelhas. Ergui meu braço para que meu Pai levasse o cetro e percebi outra coisa, meu braço estava quebrado. Aquele cara tinha quebrado meu braço naquele breve encontro sem esboçar nenhum movimento. Não sentia dor alguma e meus instintos falaram dentro de mim. Aquele cetro curou meu braço. Foi um dano surpresa, mas, pra mim, insignificante. Foi assim que se passou esse fato, nos primórdios de minha busca e de meu desenvolvimento espiritual nessa encarnação, logo quando comecei a estudar a viagem astral. Foi assim que eu encontrei numa projeção semi-consciente a cidade de Dite, o Castelo Obelístico e Baalzebub.

Um comentário:

Quetzalli disse...

é incrível como com você escrevendo a gente consegue imaginar todo o cenário e o cheiro desta viagem.